
Os dois mecânicos da Sportis, com as suas batas vermelhas, não têm mãos a medir. Afinações de transmissões e mudanças de rodas são as solicitações mais comuns, a que dão resposta a uma velocidade digna de registo. Sobretudo tendo em conta que os ‘empanados’ fazem uma espessa cortina em seu redor, não deixando passar a mínima brisa para a área de trabalho, o que torna o seu ofício num autêntico suplício. Chega a minha vez: o mecânico que me atende protesta com o bico de obra que lhe apresento. O outro diz-lhe que há correntes novas na carrinha. Mas ao primeiro falta-lhe um ‘descravador de correntes’. Está tudo estragado! Quando nada o fazia prever, encontro um posto de assistência com pessoal qualificado, uma miríade de ferramentas e centenas de peças de substituição, entre as quais uma corrente nova. Mas no meio de tanto material, falta a única ferramenta que permitiria substituir a minha corrente defeituosa. Não faz mal, volto para a estrada. Até que de trás de mim se ouve uma jovem voz dirigir-se ao mecânico: «o que o senhor precisa não será um […]?» e dispara um jargão técnico de que não me recordo o nome. A resposta foi pronta: «não, o que eu precisava era de um descravador de correntes!» Olho para trás. Um jovem na casa dos 18, 20 anos não se resigna com a refutação e, com a maior das tranquilidades, retira da sua mochila a ferramenta que devolverá a minha bicicleta à estrada. Mas agora é a corrente que não aparece. Depois de uma luta contra rodas, pneus, cabos, porcas, pedaleiras, caixotes e afins, o segundo mecânico lá encontra a dita corrente e regressa disposto a dar nova vida à minha bicicleta. Depois da reparação, experimenta uma mudança de velocidade… tudo desengrenado de novo. O seu olhar impassível é tranquilizador. Coloca tudo no devido lugar enquanto o diabo esfrega um olho e de chave de fendas na mão procede a uma rápida afinação final. Está muita gente à espera e por isso despede-se sem ter tempo de deixar a máquina a trabalhar como um relógio suiço: «Oh amigo, vá por aí acima sempre na mesma velocidade». Agradeço aos mecânicos, relembrando que o 'descravador' metido à pressa no bolso de uma das batas é propriedade do prevenido jovem que mudou o curso da minha jornada. Agradeço-lhe também, reconhecido. Sigo viagem.
Sem comentários:
Enviar um comentário